Maria d’Ajuda

Maria d’Ajuda, parteira e pajé indígena

“As plantas que servem pra fazer remédio brilham na minha vista, eu cheiro, eu pressinto. Eu não tenho leitura, mas eu sei ler a terra, as plantas e os remédios”

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Seu nome indígena é Jaçanã, o mesmo daquele belo pássaro colorido, mas foi registrada como Maria d’Ajuda, justamente por ser de Arraial d’Ajuda na Bahia, e o destino também lhe favoreceu para marcar bem esse nome: ela ajudou muitos curumins a chegarem ao mundo. Além de parteira, d’Ajuda é raizeira e se tornou a primeira pajé (líder espiritual) da etnia pataxó.

A primeira vez que a encontrei, eu tinha 17 anos, durante minha primeira viagem ao nordeste em busca de parteiras. Quando cheguei até sua casa, me apresentei e fui recebida como se já fosse sua amiga de longa data. Ela me convidou para sentar no sofá e foi colher caju do pé para me oferecer. Que caju doce! Tão doce como aquela senhora de olhar puro e sorriso sincero que me recebeu. Aproveitando o assunto do caju, ela me levou para passear no quintal e ver um pouco da sua horta e pomar. Há mais de vinte anos, dona d’Ajuda havia começado a plantar diferentes tipos de árvores e ervas medicinais, o que resultou em um sistema agroflorestal no quintal de sua casa. Ela contou toda orgulhosa que havia mais de 20 tipos de árvores frutíferas, e que até estudantes de Salvador já tinha, passado por lá para conhecer sua farmácia viva.

Um pomar diverso, canteiros de ervas medicinas e uma horta generosa, ela tira quase tudo o que come do seu quintal, e também compartilha com outras pessoas da aldeia. Em nosso passeio, às vezes ela parava para conversar com as plantas e ia explicando as propriedades e formas de uso de cada uma, falando principalmente do que sabia sobre plantas medicinais para mulheres. O seu contato com as plantas começou quando ela era “desse tamanhozinho assim” – disse apontando para o netinho de uns 6 anos de idade, já o interesse pelo parto veio um pouquinho depois, quando tinha 12 anos.

Quando criança, ninguém nunca tinha visto e nem ouvido falar de médicos naquela região. Ela viu a mãe cuidar do padrasto por muito tempo, com o que chama de “remédio do mato”, feito de chás e xaropes de raízes, depois de um acidente de mula que ele sofreu. O primeiro remédio que fez, aos seis anos, foi para a própria mãe quando ela adoeceu. Dona d’Ajuda foi para o quintal, desesperada, sem saber o que fazer, e pediu para Deus mostrar as plantas que deveria usar para ajudar sua mãe. Ela aprendeu assim: observando a mãe, e depois pela necessidade da própria. E quando aquela senhora ainda era uma menina perdeu a mãe, depois o padrasto foi embora, então ela cresceu e se criou sozinha e sempre quando via gente se escondia no mato. Ela tinha medo de gente e preferia ficar só.

Dona d’Ajuda não só planta como também sabe preparar todo o tipo de remédio, desde xarope, tinturas, infusões, óleos vegetais e essenciais. Ela ensina que a massagem tem que ser feita com bastante pressão na bacia (pelve) para aliviar as dores do trabalho de parto, e seus óleos preferidos são o óleo de amêndoas e óleo de coco, esse último, ela mesma prepara com os cocos do seu quintal ou da praia mais próxima, e não desperdiça nada, pois usa também a água do coco como um “soro caseiro” para hidratar as mulheres que vão ganhar neném. Os banhos de assentos que sugere para as mulheres antes de parir, normalmente são com flores com pétalas abertas para que “o útero também se abra.

Logo depois que o bebê nasce, a parteira enterra a placenta, mas também sabe como preparar tintura dela, um remédio comumente feito pelas parteiras mexicanas. Se por alguma razão, a placenta encontra dificuldade para sair, ela tem conhecimento da oração de Santa Margarida que outras parteiras do nordeste também me falaram que usam. Como não haviam muitos hospitais naquela região, ela tentava usar de tudo o que sabia para ajudar.

O ser humano faz parte da natureza, e dona d’Ajuda não nos separa dela. “A lua move com tudo, minha filha” – me disse certa vez, “com as marés do oceano, com o animais, com as plantas e até com o cabelo” – e portanto existe a lua certa para plantar e colher, para cortar o cabelo, pois se quisermos que o cabelo cresça mais rápido é melhor que cortemos na lua crescente -, e claro, “a lua move também move com os ciclos das mulheres, com as regras (menstruação) e com a mulher que vai ganhar neném”

Para dona d’Ajuda, parteira já nasce sendo, tem algo misterioso nisso, que mistura dom com destino. Ela fala que desde criancinha queria entrar nos quartos para ver as mulheres “ganhando neném”, mas que naquela época esse era um assunto proibido para as crianças. Tornou-se parteira quando atendeu seu primeiro parto, aos 20 anos de idade. Para ela, uma das coisas mais importantes nesse trabalho é o amor: tanto pela profissão quanto para com a mulher que está parindo, e as trata como se fossem suas filhas legítimas.

Hoje em dia, ela atende poucos partos, com a chegada dos hospitais na região, a cultura do parto hospitalar está cada vez mais presente na aldeia, e como está ficando mais velha e ninguém mais jovem está seguindo seu caminho, prefere se dedicar mais ao cuidado com as plantas. Todas as vezes que fui visitá-la, fosse ao me receber ou ao nos despedir ela sempre dava algum presente de seu quintal, já virou tradição, fosse um frasco de óleo, uma tintura de flores ou uma pomada de ervas, Dona D’Ajuda sempre dá um jeito de eu carregá-la na lembrança.