Zefa da Guia

 

Zefa da Guia, parteira e benzedeira quilombola

As parteiras são espíritos de luz que trabalham para ajudar as pessoas”

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Dona Zefa sempre conta sua história de vida começando por seu próprio nascimento. Ela nasceu empelicada (dentro da bolsa das águas), algo raro, e por isso, conta que trouxe seus dons e experiências do berço – muitas parteiras compreendem que crianças que nascem dentro da bolsa trazem dons espirituais. Dona Zefa expressou esses dons desde criança, começou a rezar aos sete anos, e aos onze fez seu primeiro parto. Desde então ela nunca mais parou de benzer e “pegar menino”.


Hoje, cerca de cem pessoas de todos os lugares do nordeste chegam até o quilombo de Serra da Guia para encontrar dona Zefa em busca de auxilio espiritual, cura para doenças e conselhos sobre a vida. A popularidade de Zefa nasceu do trabalho que dedica há quase sessenta anos como parteira e benzedeira da região. Entendemos melhor sua história quando, ao tentar encontrar o quilombo, perguntamos para as pessoas que encontramos nas estradas, e na vida de todas aquelas pessoas, Dona Zefa tinha passado de alguma forma marcante. Ouvíamos de cada um algo diferente: “Zefa foi quem pegou meus filhos” ou “Zefa batizou um menino meu”, “Dona Zefa é que nem uma mãe pra mim”.

Ao lado de sua casa, entrei em uma salinha pequena que ela utiliza para os atendimentos espirituais, em seu altar há imagens de orixás africanos e santos, e pude sentir a força daquele lugar que recebe orações e rezas todos os dias. Ao começar a reza, Dona Zefa fechou os olhos, e começou a entoar uma canção para incorporar o espírito de um caboclo. Ela ouvia as questões que cada pessoa trazia, e sempre com os olhos fechados, cantava músicas, limpava a energia com o movimento das mãos, e no final sempre passava receitas que utilizava plantas medicinais, através de banhos, xaropes, chás, óleos, garrafadas e também aconselhava de maneira séria sobre hábitos e comportamentos durante o tratamento.

Encostado à pequena sala de rezas, havia um outro cômodo onde ela faz atendimento em gestantes. Ela me explicou que nos últimos anos, escolheu diminuir os atendimentos  aos partos, e que só “pegava os meninos” quando via que não daria tempo de chegar no hospital, pois estava cada vez mais difícil registrar as crianças que nasciam no quilombo. Ela tinha uma grande preocupação: por ser analfabeta, a única forma como poderia passar adiante seus saberes era de forma oral, porém os mais jovem no quilombo não tinham interesse em dar continuidade nessa profissão. Com sua poesia natural, disse que não sabia “o que os ramos e os frutos de suas raízes dariam” e ficava triste com isso. Seus saberes são sua maior herança e transmiti-los seria a maneira de permanecer viva, por isso pediu que guardássemos no coração o que estávamos vivendo e aprendendo naquele momento.

Dona Zefa tem importante representatividade política e social, principalmente no que se refere a assuntos relacionados com consciência negra, empoderamento das mulheres e saberes tradicionais. Em um blog na internet dedicado à ela, é possível encontrar fotos de um encontro com a zen-budista monja Cohen e recebendo homenagens de pessoas como o ex- presidente Lula e Dilma Roussef. Ela foi uma das responsáveis pela conquista da energia elétrica através das placas solares na comunidade. Mas ainda tem muitos motivos para lutar, uma vez que o saneamento básico é muito precário e não há água encanada, sendo essa uma das grandes pautas políticas da Dona Zefa, que não quer morrer antes de garantir que esse direito chegue ali. Nos períodos de seca mais intensos, o exército vem à comunidade com caminhões-pipa para abastecer o poço.

O momento das refeições era uma verdadeira reunião em sua casa. Comida não faltava ali, muito menos pessoas para se alimentarem. Crianças, parentes, amigos, filhos adotivos, todo mundo ia chegando ao sentir o cheiro do arroz com feijão. Dona Zefa comia e rezava ao mesmo tempo: “Graças a Deus, aqui nunca faltou comida, não! Pode chegar quem quiser”. No quilombo, vivem cerca de oitenta famílias que se sustentam através da agricultura familiar, onde o feijão e o milho são os protagonistas na mesa das pessoas. Ela acorda junto com o Sol todos os dias, e nos disse com firmeza “Quem muito dorme pouco aprende, minha filha”.

Dona Zefa mandou chamar uma moça do quilombo que estava grávida, pois queria nos mostrar como fazia os atendimentos com as gestantes. Antes da moça chegar, ela foi até sua sala de atendimento, forrou a maca com um lençol todo florido, se vestiu com uma camisa branca e certificou que tudo estava limpinho e organizado. Quando a gestante chegou, elas se abraçaram e já foi se deitando na maca. Zefa me mostrou toda atenciosa a forma como ela tocava a barriga, como sentia o encaixe do bebê, onde estavam as costas e a cabecinha e me explicou sobre a posição do útero, colocando minha mão junta à dela e me ensinando como se apalpava a barriga. Em certos momentos, com toda naturalidade que lhe pertencia, fechava os olhos e falava algumas palavras em reza, pedindo para que a moça continuasse tendo uma gestação saudável e que tivesse um bom parto.

Durante o atendimento, Dona Zefa e a gestante iam trocando conversa. Zefa perguntava sobre sua vida e sobre seu o marido. Seu parto seria no hospital por conta da burocracia do registro dos bebês e lamentou quando falou sobre a diferença do tratamento que recebia na salinha de Dona Zefa ao que recebia no hospital: “Aqui é tratamento VIP”. Mais tarde a mesma moça, me confidenciou que ela se preocupava muito com o que aconteceria com o quilombo depois que Zefa partisse. E no mesmo dia, ouvi de Zefa “se eu pudesse, eu não morria, queria ficar muito tempo mais, pra construir, ajudar e fazer uma coisa que pudesse agradar”.